quinta-feira, 12 de julho de 2012
"Nada nesse mundo tem mais toneladas do que a saudade, nada. Saudade é uma dor imensurável e sufocante presente em cada hiato. É sentimento abstrato que esmaga o peito como se fosse concreto. A saudade é a vírgula quilométrica enraizada entre dois pontos, dos muitos textos que a vida infelizmente pausa por falta de prosa e até pelo excesso de rosas. Saudade afia os ponteiros do relógio, transforma poucas horas em cortes profundos, dominados por flashbacks com ardor de álcool cuspido sobre ferida aberta, aparentemente incicatrizável. A saudade nos afoga com as águas calmas do passado, desfoca o presente e congela o futuro como faz o frio polar de uma nevasca.
A saudade transforma qualquer música em motivo para pensar naquilo que partiu dentro de um avião, que nunca deveria decolar, nem por decreto do Papa. Saudade é emoção indivisível, razão incontestável para relembrar o gosto inesquecível daquela pessoa que mudou nossos passos, gestos e hoje, infelizmente nos considera gasto, empoeirado. A saudade é a sombra maldita que não precisa da luz solar para nos seguir por cada calçada da vida. Ela repousa num banco de passageiros vazio, dorme em nossa insônia, esconde-se nos presentes que prendemos em caixas lacradas, blindadas pelo medo de encarar as memórias boas.
Ela transforma comercial de televisão em lágrimas reais, faz homem barbado virar menino ansioso em dia de natal, como um cachorro que espera o dono todo dia ao pé da porta, mesmo que esse nunca mais volte pra casa. A saudade enlouquece, embriaga, faz o mundo todo ter uma só cara e nenhuma cura. A saudade é um bar que já saiu rotina, um prato de risoto que foi comido antes do gozo, um beijo único no meio do olho. É o medo de perder uma peça em meio à multidão e nunca mais encontrar outro alguém que encaixe tão bem nesse quebra-cabeça. Saudade é temer a vinda do novo e teimar em achar que o velho sempre será a melhor parte dessa obra de arte, chamada vida.
A verdade nua e crua é que ninguém nesse palco real está imune ao pesar da saudade, a dor latejante das inevitáveis partidas e aos planejamentos que talvez permaneçam inacabados até o fim da vida, esquecidos numa lista eternamente guardada no fundo da gaveta, mas nunca jogada fora. Desconheço alguém nesse universo grandioso que não tenha perdido o chão, a cabeça, a pose e até mesmo a sanidade quando deu de cara com esse tal sentimento com aparência de muralha intransponível e cheiro de fotos velhas. Não existe colete à prova de saudade, nem formas de blindar nossa vida dos estilhaços daquilo que vai e nem sempre volta.
Sendo bem sincero, existem sim algumas dicas para quem não quer esbarrar com a saudade: recuse toda e qualquer alegria que te faça gargalhar até sentir dor nos músculos da barriga, nunca se envolva com pessoas capazes de colorir teus dias mais cinzas e chuvosos, coma tudo sem sal e sem tempero, não viaje, não saia de baixo do edredom por nada, não beije nem na bochecha, não faça sexo e em hipótese alguma conheça seus avós se a vida lhe der essa oportunidade imperdível.
Não sei vocês ilustres leitores, mas eu prefiro carregar essas mil toneladas de saudade, ainda que em meio a lágrimas e memórias martelantes, pois só assim terei a certeza que estou vivo de verdade, sem talvez, nem porém. Afinal, saudade é corpo de delito das coisas boas da vida."
Texto de Ricardo Coiro
Cadê o amor?
"A gente ouve o tempo todo que casar por amor é uma péssima ideia e que o sexo tem que ser bom para conseguir sustentar uma relação. Isso converge com a ideia de que a nossa Era, dita “moderninha”, é apressada e as pessoas não tem mais tempo para criar laços muito profundos, nem se apaixonar, se é que isso ainda existe no pensamento contemporâneo das grandes cidades. Quando a gente vira e diz que é ingenuidade pensar em amor, a gente acaba por se proteger (e por descartar) a ideia de que amor existe. Para conquistar uma liberdade sexual que era necessária e uma ideia de atitude onde ser esperto é o que importa, a gente modificou um bando de valores e sentimentos. Ou pior: a gente deixou isso tudo para trás.
Outro dia desses, num papo sobre traições e como o diálogo sobre sexo ainda é um grande tabu e uma barreira para casais atualmente, uma leitora me chamou a atenção para o fato de que a gente costuma dar crédito ao sexo pelos problemas de um relacionamento. Fica bem óbvio que relacionamento nenhum se sustenta só com carinho e afeto, mas com boas doses de paciência, entendimento, confiança e condições materiais que possibilitam uma união, seja ela oficial ou não. Só que isso me fez pensar sobre como a gente anda construindo relações mais vazias em prol do exercício da liberdade sexual. Parece que, quanto mais a gente luta pelo direito de fazer o que quiser no sexo, mais a gente acaba se esquecendo de que o nosso objetivo era melhorar uma parte da relação que era oprimida. Sexo tem relação direta com prazer físico, com intimidade, com parceria e procriação. Mas também faz parte dessa coisa bacana que a gente acredita ser o amor.
E daí a gente acaba por pensar: e se aquela guria bacana que a gente conheceu e anda saindo não for tão boa de cama assim? Então não vale a pena considerar o resto? Será que o sexo numa relação assumiu uma proporção em que ele importa mais do que outros fatores como a sensação de amar alguém e a luta diária de um casal para manter esse sentimento vivo? Acho que a nossa geração acabou por fazer a coisa errada. Em vez de transformamos os valores obsoletos que oprimiam a questão sexual e deixavam lacunas em aberto numa relação, nós deixamos coisas serem perdidas pelo caminho e construímos outro tipo de valor. O valor sexual que se sobrepõe aos outros. As pessoas se tornaram obcecadas pela alta performance na cama em vez de um papo interessante, pelo tamanho do pau do cara em vez do caráter dele, pelo entendimento completo do Kama Sutra em vez de tentar entender o outro. Construímos relações que se esgotam na cama e que não saem mais dela. A gente trocou a busca por amor – talvez fantasiosa e ingênua – pela busca pela satisfação sexual, que é competitiva e selvagem, onde quem deixa a desejar não tem vez.
Pode ser exagerado pensar assim e considerar que a gente não tenha obtido um equilíbrio até hoje. Mas a verdade é que o amor em si foi deixado de lado e se perdeu em meio a tantas buscas. Amor mesmo, esse sentimento clichê e piegas que todo mundo recrimina quando o outro fala, mas busca interna e intensamente. Amor que foi trocado pela adrenalina e diversão do sexo. E, à leitora que me fez ver o outro lado da moeda, eu deixo a resposta do título: o amor foi parar em algum lugar no qual muita gente ainda não conheceu, mas ele está por aí. Um dia a gente esbarra nele de novo e descobre que ele também é gostoso e dá prazer. Um dia a gente retoma a busca e encontra algum equilíbrio. Nem se for pra concluir que cada um é que decide como regular a balança numa relação."
Texto de Daniel Oliveira.
domingo, 24 de junho de 2012
"(...)Hoje, eu consigo olhar pro meu passado como uma espectadora. E apontar cada detalhe e cada erro e acerto e cada instante e sensação e fuga. As projeções que fiz, as dependências que criei, as compulsões que tive, hoje são um presente de maturidade e otimismo. Porque comecei a atrair pessoas, histórias e assuntos mais leves, saudáveis. E criei pra mim uma rotina de paz, e deixei de admirar muita gente e a apreciar outras. E vivi muita solidão, muita solitude, muito aconc...hego também. Hoje sou tão grata por tudo que doeu, por tudo que sangrou, pelo sono perdido. Retomei o controle da minha vida e estou sendo amada de uma maneira que me deixa mais segura. Perdi meus medos, sobrou apenas a minha fobia de altura. E, por menos que eu tenha escrito, a poesia sempre esteve em mim. Brindo com vocês esta fase nova em que, finalmente, conheci a tranqüilidade. Se eu tinha esquecido desta frase, hoje eu posso repetir com o coração cheio de certeza: TUDO VAI DAR CERTO SEMPRE, porque a vida se encarrega das coisas e ela nos compensa com ela mesma. "
((Marla de Queiroz))
((Marla de Queiroz))
sábado, 16 de junho de 2012
terça-feira, 12 de junho de 2012
Cada relacionamento entre duas pessoas é absolutamente único. Por isso você não pode amar duas pessoas da mesma maneira. Simplesmente não é possível. Você ama cada pessoa de modo diferente por ela ser quem ela é e pela especificidade do que ela recebe de você. E quanto mais vocês se conhecem, mais ricas são as cores desse relacionamento.
A cabana
O que me interessa no amor, não é apenas o que ele me dá, mas principalmente, o que ele tira de mim: a carência, a ilusão de autossuficiência, a solidão maciça, a boemia exacerbada para suprir vazios. Ele me tira essa disponibilidade eterna para qualquer um, para qualquer coisa, a qualquer hora. Ele apazigua o meu peito com uma lista breve de prós e contras. Mas me dá escolhas. Eu me percebo transformada pelo que o amor tirou de mim por precisar de espaço amplo e bem cuidado para se instalar. O amor tira de mim a armadura, pois não consigo controlar a vulnerabilidade que vem com ele; tira também a intransigência. O amor me ensina a negociar os prazos, a superar etapas, a confiar nos fatos. O amor tira de mim a vontade de desistir com facilidade, de ir embora antes de sentir vontade, de abandonar sem saber por quê. E é por isso que o amor me assombra tanto quanto delicia. Porque não posso virar as costas pra uma mania quando ela vem de uma pessoa inteira. Porque eu não posso fingir que quero estar sozinha quando o meu ser transborda companhia. O amor me tira coisas que eu não gosto, coisas que eu talvez gostasse, mas me dá em dobro o que nunca tive: um namoramento por ele mesmo. O amor me tira aquilo que não serve mais e que me compunha antes. O amor tirou de mim tudo que era falta.
Marla de Queiroz
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