sábado, 6 de outubro de 2012

domingo, 2 de setembro de 2012

 
 
Ô menina, veja bem…Ouça uma boa música, leia um bom livro e bola pra frente.
Pode parecer clichê, mas funciona. Vá por mim.

CFA

sexta-feira, 20 de julho de 2012

AMIGOS (Vinicius de Moraes)

 
 
Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho
deles.
A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o
objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o
ciúme, que não admite a rivalidade.

E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os
meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos !
Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto
minha vida depende de suas existências ...
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem.

Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto
gosto deles. Eles não iriam acreditar.
Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na
sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e
não
os procure.

E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são
necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque
eles
fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram
alicerces
do meu encanto pela vida.
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado.
Se todos eles morrerem, eu desabo !
Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles.
E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu
bem
estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima
por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer...
Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não
me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando
comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só
desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos !

A gente não faz amigos, reconhece-os.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O dia em que duas almas se encontraram.

Você me esperava na esquina. Te avistei logo que saí do estacionamento. Só pode ser ele. Você ainda usava óculos, tinha cabelo mais comprido, jogado pra trás. Segurava uma bolsa de lado e pegava o telefone, ao mesmo tempo que o meu vibrava no bolso. Acho que já te vi. Foi aí que você me viu também e a gente caminhou um ao encontro do outro. Durante aqueles poucos passos, tentava te decifrar, tentava perceber se era aquela imagem mesmo que eu tinha de você por trás da tela do computador.
Coisa louca essa de conhecer gente pela internet, meus avós diriam. Pois pra mim, foi orgânico. Seu rosto em 3X4 insistentemente pulava na minha tela enquanto navegava pelas, hoje, extintas comunidades. Cliquei uma vez. Li seu texto. O status de comprometido me fez clicar em outras bandas. Mas seu nome ficou. De alguma forma ficou. Até que cruzei com você tempos depois na mesma tela. A mesma foto 3X4. Você de lado, camiseta roxa. O status do comprometido de repente já não mais fazia parte do cenário. Reli seu texto que te descrevia. Me identifiquei com quase tudo. Não sei se isso é verdade, mas se for, preciso ver de perto.
E naquele dia eu te vi. Sem foto 3X4. Sem tela. Sem textos. A gente se cumprimentou com um beijo no rosto e um abraço – sem, nem sequer imaginar, que aquele seria o primeiro de tantos. A baladinha em Pinheiros que tínhamos combinado de nos encontrar ainda estava fechada, então fomos para um bar. A gente atravessava a rua e eu reparava em todos os detalhes seus, sem sequer imaginar, que aqueles detalhes seriam no futuro, os detalhes mais lindos dentro dos meus olhos.

E a gente falou sobre a vida. Falamos muito, como falamos hoje, com a diferença que naquele momento ainda éramos estranhos. A afinidade, aquela coisa invisível e difícil de explicar, tomava forma. Você ainda era um estranho, mas, algumas horas e alguns copos de cerveja depois, eu, de alguma forma, sabia que já estávamos enredados, e que seria impossível recuar. Reparava nas suas mãos grandes, nas suas ideias grandes. Queria ficar perto, sem aquela mesa nos atrapalhando. Sempre achava um jeito de tocar em você, de te sentir materializado – na sua mão na hora de recarregar o copo; no seu ombro na hora de levantar para ir ao banheiro; no seu cabelo tirando uma folhinha que tinha ficado presa ali.
O fato é que, as horas se passaram e o buteco de esquina, que seria somente um local de espera, se tornou o cenário principal desse encontro. Caio já dizia que num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra. Eu, de alguma forma difícil de explicar, te reconheci. No primeiro segundo, do primeiro minuto. Você sugeriu que levantássemos e que fossemos para o destino inicial. Eu achei estranho, porque já era fim de noite e o papo estava tão aconchegante ali naquele buteco em uma esquina qualquer. Só depois entendi suas más-intenções. Você também tinha percebido que a mesa nos deixava distantes demais.
E a gente se levantou. E nossas mãos, pela primeira vez, se agarraram uma a outra. Mal sabiam elas, que aquele toque seria familiar por muito tempo. Enquanto eu falava mais uma besteira, daquelas de fim de noite, você me puxa e eu, como um estilingue, vou parar no meio dos seus braços e a gente se beija, aquele primeiro beijo de tantos que – felizmente – viriam na sequência. Acho que, de alguma forma, o cosmos comemorava – Isso, garota, você fez tudo certinho. E, de repente, mais ninguém parecia caminhar pela rua, enquanto eu tinha certeza que meu coração, a partir daquele dia, estava ocupado. Você me olha nos olhos, afasta meu cabelo do rosto e solta um: Não consegui resistir. E eu, dando início àquele que seria nosso segundo beijo, só conseguia pensar: Resistir, para quê?

Texto de Jaque Barbosa.
Um dia no futuro com você.


E eu acordava querendo ter certeza que não era sonho. Os olhos ainda pesados, consequência das poucas horas dormidas desde o dia anterior. Não os abri. Fui te farejando que nem bicho. Seu pescoço, sua barba, o vão do seu braço. Era você mesmo. E abri os olhos para ter mais certeza que não era sonho. Com a visão embaçada, vi o branco das duas portas, alinhadamente fechadas. Através delas, não se via o dia – tinha-se apenas noção de como estava lá fora. Raios de luz entravam pelas pequenas frestas, anunciando que o dia já tinha desabrochado. Me desencaixei de você driblando seus braços que sempre querem que eu fique um pouco mais. Mas a luz entrava pelas frestas e eu precisava conferir como estava o dia lá fora.
Levantei sem achar os chinelos. Peguei o seu 45 que sambava no meu pé 37. Quase esbarrei nas taças de vinho, sujas de vermelho tinto, ao lado da garrafa vazia. Resquícios da noite anterior. O cinzeiro, ao lado das garrafas no chão também continha indícios da noite passada. E imagino que, há alguns anos atrás, jamais iria imaginar que vinho, sonzinho, umas tragadas e você fossem ser meu conceito ideal de uma noite perfeita.
Tropecei em um dos brinquedos dos cachorros, que viviam sempre espalhados pela casa. A casa vivia sempre com brinquedos espalhados, babados, mordidos. Só que não por crianças. E sim pelos cachorros, que, ocupavam brilhantemente esse papel na família.
Pensei que deveria lavar o rosto e escovar os dentes, mas precisava conferir aquela luz que vinha da porta. O quarto escuro, dava poucos sinais de que o dia já raiava lindo. Mas eu suspeitava. Os diversos dias passados naquela casa já tinham me ensinado sobre os tons das luzes que entram no quarto. Fazia um dia lindo, eu apostava.
Virei a maçaneta da porta e a luz entrou com toda a força. Fazia um dia lindo, como suspeitava. De dentro, podia ver os cachorros se divertindo correndo atrás de algum inseto e rolando na grama. Eles provavelmente já tinham acordado há horas, mesmo depois de uma noite com interrupções de sono. Cachorro nunca dorme tão ininterruptamente como a gente. Eles são os guardiões da casa, você sabe. Ficam alerta o tempo todo. E a gente, pra compensar, deixa que eles entrem durante o dia e fiquem deitados debaixo da mesa, perto do quentinho do fogão de lenha.
Você ainda dormia, no cantinho da cama, como se eu ainda estivesse lá. Engraçado que, quando a gente gosta de dividir a cama com alguém, a gente perde pra sempre a mania de dormir no meio. Ficamos sempre mais pro canto, respeitando o espaço invisível do outro. Saí do quarto devagar, desci as escadas, abri a porta da cozinha. Os cachorros, pararam a perseguição às borboletas e vieram me dar a lambida matinal. Eu sei, também senti falta de vocês. Vêm pra dentro, vêm.
Coloquei a água pra ferver com açúcar e o pó no coador de pano. É só assim que sei fazer café. Tem que ir com o açúcar junto, se não perde o gosto de café de mãe. Mas sempre com pouco açúcar, e mais pó. A água fervia enquanto olhava da janela os primeiros pézinhos de rúcula querendo crescer. O cheiro da água quente ia afogando o pó de café e unindo tudo numa mistura irresistível. Aquele cheiro de café saindo era meu vício. Me lembrava de casa. Dos inúmeros cafés da tarde.
Enchi duas xícaras, tomei um gole – o primeiro da manhã é sempre impagável – e levei a sua para o quarto. Você já sabia que esse cheiro de café era sinal que eu já estava de pé, faz tempo. Essa foi uma coisa que nunca conseguimos alinhar. Você continuava dormindo tarde e eu acordando cedo. Joguei baixo – fui dando beijinhos enquanto a fumaça do café chegava até você. Bom dia. Fiz café pra gente. Você me puxa pra cama, eu deixo o café esfriando na cabeceira. E a gente encaixa aquela conchinha, daquelas difícil mesmo de explicar. O dia tá lindo lá fora, vamos andando até a cachoeira? Os cachorros, como que se tivessem ouvido, entram em bando no quarto e me ajudam a te acordar com lambidas de bom dia.
Enquanto você desperta, naquele ritmo vagarosamente gostoso e só seu, eu concluo, feliz, que aquilo é um sonho. Daqueles sonhados há tempo. Construídos num longo processo de detalhamento de paixões. Ninguém disse que seria fácil. E a gente, não sabendo que era impossível, fomos lá e fizemos. E me lembro daquela foto que te dei de aniversário e que toscamente montei com recortes de revista – a casa de tijolos, a montanha, os cachorros e a gente feliz da vida. Pra você olhar sempre, sabe, essas coisas atraem. Funcionou. Era o gosto doce do privilégio de poder viver um sonho, em vez de só sonhar.

Texto de Jaque Barbosa
Fragentos de uma noite com você.

- Amor, me dá o último abraço? Tenho que levantar.
Ele, mesmo ainda habitando o universo do sono profundo, me puxa pra perto, envolve seus braços grandes em torno de mim, enquanto encaixo minha cabeça no espaço certinho criado pelo vão da sua clavícula direita.
- Deixa eu colocar um travesseiro aqui, pra você não ficar com a cabeça no duro do meu osso.
Ele, sonolento, puxa, assim como puxou tantas outras vezes, a pontinha do travesseiro para deixar o encosto mais confortável para mim. Mal ele sabe que, no mundo, não há lugar que me traga mais aconchego do que deitar naquele corpo – com ou sem osso.
E a soneca do despertador impieodoso, toca mais uma vez.
- Mas já se passaram dez minutos? Para mim não pareceram nem dois, eu digo, pensando que o despertador não seria tão cruel se soubesse a sensação que eu estava vivendo naquela hora. – Só mais cinco minutos, se não o trânsito fica insuportável.
Sei disso. E sei que, milhares de vezes, fiquei parada no trânsito por causa dos minutinhos a mais. Não é uma tafera fácil ir da zona Norte de São Paulo até a Zona Sul, às sete da manhã. Preciso sempre sair uns minutos antes de o relógio marcar sete horas, porque se tem alguém mais impiedoso que o despertador, é o trânsito dessa selva de pedra. Ainda mais com a chuvinha que, desde ontem, cai fina lá fora.
- Vamos fazer uma última conchinha?
Ele finge que acredita e, como numa sintonia, viramos. Acho engraçado como não nos importamos em nos virar quantas vezes forem necessárias durante a noite. Nosso barato mesmo é dormir colados, juntos, conectados. Se um quer virar pra direita, o outro vira também. Ninguém se importa. O importante é não perder o laço.
Ele puxa meu corpo de encontro ao seu, passa seu braço por debaixo do meu pescoço, ao mesmo tempo em que tiro os cabelos da nuca, para que ele possa encaixar seu rosto nela sem pinicar. A respiração dele na minha nuca sempre foi pra mim uma forma de amor. O ar quente me esquenta e aumenta aquela preguicinha gostosa. Mas hoje é quarta-feira. Quarta com cara de segunda, porque acabamos de sair de um feriado emendado. Não tem espaço para preguicinhas gostosas. Fiquei me lembrando como as duas manhãs anteriores foram boas, sem ter que discutir com o despertador e poder ficar colado sem fazer absolutamente nada por horas a fio.
Eu sempre acordo mais cedo. Tenho tique de ficar na cama acordada. Por mim, acordo e levanto. A não ser quando tenho uma companhia ilustre do meu lado, me abraçando num encaixe perfeito. Mas pra mim, só tem graça se ele também acorda – que graça tem fazer carinho se ele não sente? Arrumo uma forma de me mexer disfarçadamente, e começo a dar beijos na pele lisinha do seu pescoço como se tivesse mesmo acabado de acordar. Ele, finge que acredita, retribui meus beijos e, educadamente, me faz companhia – meio dormindo, meio acordado.
E a soneca do despertador impiedoso, toca mais uma vez.
- Preciso ir amor, vou pegar trânsito – digo como se estivesse fazendo algum esforço além do mental para levantar dali.
- Só mais um abraço, vai te atrasar muito?
Não, claro que não. O trânsito vira coisa pequena, diante daqueles minutos de paz e de aconchego. Encaixo meu rosto no pescoço dele, respiro fundo, como que pra guardar o cheiro dele dentro de mim. E fico pensando, ainda sem coragem de abrir os olhos, que todo mundo precisa de um aconchego desses. O aconchego deixa a vida mais quentinha. É como aquela sensação de chocolate quente com pão de queijo de vó nos dias frios. É alimento pra alma.
Finalmente me levanto, num esforço sobre-humano. Puxo o edredom caído, faço um casulo para seus pés não ficarem de fora da coberta. Me troco em minutos, para compensar os minutos extras na cama.
Valeu a pena.
Me despeço com um beijinho e sussurro um eu te amo nos ouvidos ainda pouco atentos por causa do sono. Completo com um obrigada pela companhia deliciosa na noite. Ele provavelmente não vai lembrar quando acordar, mas sempre arrisco.
E finalmente saio, com a energia recarregada e cheia de coragem de enfrentar o trânsito infernal, pensando que a coisa que a gente mais precisa na vida é aconchegar, e se deixar aconchegar.

Texto de Jaque Barbosa