domingo, 14 de julho de 2013



Trago no corpo
Cicatrizes subcutâneas.
Trago no olhar
Uma tristeza subterrânea
Que o meu sorriso
Se empenhou
Em aniquilar.

Eu nunca fui vítima de nada
Mesmo quando me afoguei
Por não saber nadar.
Eu escolhi o mergulho
E corri o risco
De vivenciar minhas emoções
Em alto mar.

Trago na alma
Alegrias decorrentes
De uma parca memória.
Tenho um passado pesado
Mas reescrevi minha história.

Trago no peito
Apenas amor, gratidão.
A vida me ensinou
Que sobreviver à derrota
É uma grande vitória:
Superação.


Marla de Queiroz 

sexta-feira, 12 de julho de 2013



Então os anos passam e você entende que boa parte de tudo que sonhou não vai acontecer. A maturidade te obriga a pagar contas, ter emprego fixo e garantir o fundo de garantia para uma velhice tranquila. Aos poucos, a bagagem dos sonhos começa a pesar e decidimos ir abandonando as vontades pelo caminho.

Mudamos nossas atitudes e nos conformamos com o que a vida nos reservou. Alguns sentam e lamentam, outros relaxam e continuam querendo. Eu faço parte da segunda categoria. Posso adormecer um sonho, mas vira e mexe vou até ele e mostro que ainda estou aqui.

Outras vezes finjo que esqueci da sua existência, mas o amarro bem perto pra ele não fugir. Muitos sonhos vão sobrevoar nossa vida e aqui do chão parecerão impossíveis de serem alcançados.

Mas eu não desisto e estendo meu braço. Além disso, os obstáculos do cotidiano vão cortar as asas do nosso pensamento fazendo muito do que queremos tornar-se impossível. É verdade, pode ser que eu de fato não consiga chegar até eles, mas a confiança já faz de mim uma pessoa bem melhor.


Fernanda Gaona


Alguém para nos completar. Essa idéia é implantada em nossa mente desde que nascemos. Vivemos uma espera sem fim por algo que nunca vem. Isso porque aprendemos a nos basear em idéias quase sempre vazias. Deixamos de viver o nosso todo para esperar por um pedaço de alguém.

Queremos que o irreal se torne concreto e que a pessoa dos sonhos se materialize em nossa frente. Acho muita responsabilidade exigir que alguém nos complete. Eu sou da teoria que precisamos de alguém que já venha inteiro.

Porque a pessoa que vem inteira sabe respeitar espaços, a pessoa que se sente completa aceita que você não é igual, e principalmente, a pessoa que aprendeu a totalidade sozinha sabe que dividir algo com você não implica em nenhuma perda para ela.

Acredito que a troca no relacionamento só é completa quando cada um é inteiramente proprietário das suas ações. E que não é a metade da laranja que faz você ser completo, mas as lições que você aprende durante sua incompletude. Essas sim serão imprescindíveis e farão você dividir completamente tudo que existe dentro de você.

Fernanda Gaona


Mais do que na força das palavras, eu acredito no poder das atitudes. Na grandeza dos gestos. Nas sutilezas das ações. Guarde seus dizeres para utilizá-los depois que fizer. Eles serão apenas um complemento.
Palavras quando não andam sincronizadas com nossos pés, não chegam a lugar algum. Não dizem absolutamente nada.
É na coerência das ações que a gente se encontra e o outro nos reconhece.
Ninguém pode viver preso em um discurso.

Ou seja,

Seja!

Fernanda Gaona

Novamente em paz... Sem os resquícios dos ecos do teu cheiro, sem a cor da tua voz tatuada na partitura dos meus desejos.
Tudo que ouço de ti é oco e nada mais recende em mim naquela cor avermelhada que me arrepiava inteira e me deixava insone.
Novamente em paz, sem saudade alguma do sorriso que você plantava no meu rosto ou daquela cara de choro que ficava quando dizia que não viria inaugurar comigo aquele dia.
Estou em paz, sem querer você, numa relação intensa de compromisso com a alegria, tomando banhos demorados pra apagar do meu corpo, sem ternura, o restinho das suas digitais.
Nada me afaga mais do que o cuidado que tenho tido comigo, nada me alegra mais do que o tempo todo que me sobra e que antes eu guardava pra esperar por você... em vão.
Sem ansiedade.
Retirei do pronome a posse e a mania de ser proprietária. Nada que vem de você me comove, excita ou machuca.

Estou em paz... novamente.

Marla de Queiroz

É que têm dias que a gente sente que algo por dentro está se alargando: eis o crescimento. E um filme passa na memória, muitas histórias do seu ser antigo. Um enredo comprido, cumprido. E todas as emoções se enfileiram para serem amadurecidas. Você está morrendo, você está na transição de ser Outro. Mas é tão confuso que fica dolorido, é um desvendar-se fundo, luto que pede desapego para agradecer e se despedir do ser findo. E cada minuto dura anos que se acoplam no seu rosto, no seu corpo, no que recém-nasce parecendo ser mais velho, mas é só um ser vivido, ainda moço: substituindo o que havia em você e que agora está morto.

É que têm dias que a gente não consegue se dar conta de que está prestando contas com o Destino. A mudança parece brusca, mas foi tão sutil e contínua que parecia nula. E a alma vai buscando mais espaço, pois a evolução interna estica a pele da percepção para que caiba a sabedoria. E, repentinamente, a gente vira adulto e tira o luto. E aprende a brincar feito gente grande: a gente compreende que crescer doeu, matou várias ilusões, extirpou algumas companhias, mas nos ensinou a paciência, o discernimento e a escolher viver inteiramente dia após dia.

Marla de Queiroz

domingo, 7 de abril de 2013



Eis que novamente surge aquela fome doida de ti. O apetite súbito que intumesce o sexo e abarrota o corpo de hormônios safados. Uma vontade atroz de tê-lo entre os braços, coxas, seios, entrelinhas, entre as flores do meu vestido pela metade do corpo. A saudade de nós dois, nossos corpos tontos e ensandecidos pela febre que nos deixa afoitos e quase aflitos, mas que não nos apressa. A querência tão familiar e sempre inédita.

E me recordo de quando te recebo e acolho dentro: no espaço febril do meu ventre onde nem eu tenho acesso, e que você transita com a naturalidade de quem passeia pelo próprio quarto...

E novamente surge essa fome doida de ti nessa cama cheia de nós, dos nossos laços e do espaço que sobra, entrelaçados que ficamos entre os lençóis. E a vontade de flutuar pelos ares, nos teus braços, no abraço eterno.

Porque nesse encontro do seu corpo com o meu desejo e do seu desejo com o meu corpo, há essa explosão: DE-LÍRIOS.

Marla de Queiroz